A Alma de poeta desfralda
A bandeira da solidariedade
Do Amor e da fraternidade.
Não deixa que o vento a leve
Ou uma simples tempestade
Pois é ela que une a Humanidade.
Mesmo que doutos arautos
Insensatos e incongruentes
Na sua ambição desmedida
Nos digam que o futuro
Será igual ao que era antes
No ilusório palco da vida.
No redil de tanta artimanha
Jamais a perfeição fará parte
Da frágil natureza humana.
Mas a alma do poeta
Enlevada pela prosa e pelo verso
Consegue mostrar ao mundo,
A verdadeira beleza do Universo.
São Tomé
Mote
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
(Mário de Sá Carneiro)
Glosa
Eu não sou eu nem sou o outro
Sou alguém bem mais profundo
Que olha indiferente o mundo
Com a lucidez de um louco.
Que ri, que chora, que sente,
Sou qualquer coisa de intermédio
Para o mal não vê remédio,
Não sou Deus, apenas gente.
Que neste viver iracundo
Dos doutos, só viu assédio,
Pilar da ponte de tédio
Num cais para o submundo.
Não estremeço e tão-pouco
Sinto o globo moribundo
Como errante vagabundo
Que vai de mim para o outro.
São Tomé
Meu irmão, tropel de ternura
Dos alvores da adolescência
Quando a nossa rebeldia
Confundia a irreverência.
Meu irmão, na aventura
Dos folguedos azougados
Das secretas incursões
Aos silvedos emaranhados
Para ver os rouxinóis
Soltarem os seus trinados.
Meu irmão, na beira dos rios
Seguindo o rumor das águas
Pelas reentrâncias das fragas
Logrando os peixes esguios
Com engodo como petisco
De minhocas envenenadas
Com raízes de trovisco.
Meu irmão, inventado
Nas manhãs de sol dourado
Quando o manto da primavera
Cobria de flores o verde prado.
Do calor sufocante do estio
A exaurir as águas do rio
Deixando na boca alguns medos
E o doce sabor das amoras
Numa comunhão de sangue e dedos.
Meu irmão, breve
Nas ledas tardes outonais
Com as cores mágicas do arrebol
A pincelar os matizes da terra
Numa felicidade prazenteira
Como rosa a desabrochar na roseira.
Lembranças que minha alma encerra!
São Tomé
É à noite que o meu sonho
Voa mais alto e mais veloz
Que se solta mais no vento
Se orienta nas estrelas
E percorre mais distâncias
Só para ir ao teu encontro.
É à noite que o meu coração
Amordaçado então se solta
Se veste de rosas e jasmins
Para perfumar todos os jardins
E esperar pelo teu coração
Que como sempre não volta.
São Tomé
Não me prendas tu,
Em gaiolas douradas,
Nem pretendas
Cortar as minhas asas,
Que só querem alcançar
O mais profundo infinito
E elevar os meus sonhos
Até às longínquas Estrelas.
Deixa eu libertar
Pelo espaço, um estridente grito.
Deixa a minha alma se alimentar
De tudo ou de nada,
Porque sou como o Vento,
Que não conhece morada
E como as ondas do Mar,
Em perpétuo movimento.
Se me quiseres prender de verdade;
Deixa transparecer a tua emoção,
Usa os laços da sinceridade
E prende-me sim ao teu coração.
São Tomé
Do alto desta verdejante serra,
Com outras serras defronte
Onde posso espraiar o meu olhar,
Sem limite de horizonte,
E como se pássaro fosse
Estendendo as minhas asas,
Vejo lá ao fundo as casas
De granito, da minha Terra,
Que mais parece gigantesca tela
Duma obra Divina e bela
Que pintor algum poderá criar.
E tão bem emoldurada:
Pelo recorte dos montes altaneiros,
Do verde brilhante dos pinheiros,
Do ouro acobreado dos vinhedos,
Do cinzento pálido dos fraguedos.
E sempre animada:
Pelo cansaço das sementeiras,
Pela azáfama das colheitas,
Do burburinho intenso dos “Cafés”,
Do toque altivo dos sinos da Igreja.
Do murmúrio incessante do ribeiro,
E da melodia que fica no ar
Quando a banda passa a tocar.
Como venero o teu chão ó minha Terra
E como me agiganto neste lugar.
São Tomé
Em sólidos rochedos me forjei
Para que as pedras do meu caminho
Não me ferissem.
Com ventos gélidos me tapei
Para que as chuvas de verão
Não toldassem o meu olhar.
No luar de Janeiro me escondi
Para que as sombras do meu pesar
Não arremetessem contra mim.
No solstício de Inverno me quedei
Para que das cinzas reaparecesse
A Fénix que de mim renascesse.
São Tomé
. Fenix